
É difícil acontecer em cidade grande, porque mal se vê o céu. Quando muito, é possível ver a lua por detrás de uma nuvem avermelhada que muito bem poderia ser fumaça. Mas isso não vem ao caso. O que eu ia dizendo é que caminhava distraído quando, de repente -- e não há outro jeito -- a estrela cadente riscou o preto da noite. "Então viver é isso, meu Deus! Como é bonito e inútil..." Sim, porque viver é ser uma faísca que se atira ao Mistério, num corte fino e preciso sobre o tecido da noite escura. Mal começa, e já não é coisa alguma. O que acontece com a faísca no instante seguinte em que já não mais se vê é segredo guardado nas entranhas do breu com seu Silêncio. Mas o que é possível saber é que, durante o instante quase inobservável em que a faísca escreve a si mesma no mundo, sua luz é, ao mesmo tempo, seu destino e sua mais extrema auto-afirmação. A faísca é libertária. Rasga a noite com a violência de uma dúvida. No entanto, ela não tem escolhas nem porquês. A faísca brilha sem motivo e é lançada na incerteza. Tudo o que pode e o que sabe é ser faísca. Dançar livre e ébria ao som do crepitar da madeira em brasa. E é nisso que consiste a sua beleza. Ela é inútil, sem sentido e fugaz: eis o encanto.