
O entre-olhar é o espaço mesmo em que se inscrevem as relações interpessoais. É aquilo que mediatiza a relação entre a minha sensibilidade e a do outro, não necessariamente a visual. Nessa perspectiva, assistir ao filme "Janela da Alma" nos instigou a refletir um pouco sobre essa dimensão comunicativa e construtiva do entre-olhar na formação médica. No filme em questão, uma cineasta fala de como o não dito no olhar de sua mãe afetou sua infância e de como esses afetos acabaram influenciando a construção de sua identidade. Imbasciati, se não me engano, diz que, a partir do olhar da mãe, a criança se descobre singular e distingue o mundo interior do mundo exterior. Na formação médica, sinto que ocorre algo parecido. Os olhares nos comunicam possibilidades de determinadas formas de ser que o acadêmico recorta, descarta, absorve e ressignifica, criando uma prática sui generis. Preocupa-me, no entanto, que o olhar médico, gradualmente mais mecatronizado, ao se increver em uma nova relação com o corpo, corra o risco de deixar de lado a dimensão significante da percepção e equivocar-se pensando ser capaz de, de fato, enxergar a realidade tal como ela é, em vez de reconhecer-se enquanto um olhar singular dentre diversos possíveis. Nessa relação, temo que o entre-olhar assuma efetivamente sua conotação corrente de mera espiadela muda e objetiva(nte), esquecendo-se da dimensão dos afetos invisíveis, do intuído, da co-construção de possibilidades de saberes, de cuidado e de identidades.
Janela da Alma é fascinante. Cada frase nos confronta, nos põe em cheque. Imprescindível.
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