Este blog surge a partir do módulo "Arte e Literatura: Humanidades Médicas I" do curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará. O módulo tem por objetivo explorar, junto com as e os estudantes de graduação em Medicina, outras dimensões da práxis médica que não apenas as competências tecnológicas duras. Para isso, lança mão de recursos pedagógicos vivenciais e audio-visuais, trazendo elementos da Literatura, das Artes Plásticas, do Cinema, bem como das experiências pessoais compartilhadas pelas e pelos estudantes.
Apesar disso, hoje o blog não quer se definir. Aqui encontram-se estranhamentos e aleluias cotidianos de um contínuo tornar-se.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

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"Como és belo, amado! Belo e perecível!"





(Adélia Prado - Poesia Reunida p. 206)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Narrativas do silêncio -- parte final -- Solitude

É tão bom olhar a densa névoa dourada das quatro e meia.
Entra na pele um fôlego de vida.
Fecho os olhos e acalento estas docilidades:
tenho três anos e adormeço sentindo o cheirinho bom dos cachos recém-frisados de mainha,
painho faz cócegas na planta do meu pé rechonchudo com a barba por-fazer,
meu irmão anda pela casa com as pisadas de quem acabou de aprender a andar, exibindo os quatro dentinhos e segurando sempre uma escova de dentes -- andar sem segurar uma escova é muito perigoso.
Eu sorrio quietinho vivendo tudo.
Tenho saudades de chorar por minha avó quando ela partia.
E de estar assim desconsolado em público.
Ô pai, ô mãe, cadê vocês que eu só reconheço dentro de mim?
É a névoa das quatro e meia e as chamas de vela que meu espírito respira.
Sobe um cheirinho de bolacha cream-cracker passada na frigideira de minha tia.
Ah! como é gostoso lembrar esses cheiros, cores, jeitos, abraços, partidas...
Nutro-me assim
Inflo o peito e fico grande.
É o futuro que eu adivinho recordando.
Na luz escurecida do fim-de-tarde não há temporalidade.
Há cadeiras-de-balanço, rendas brancas, pés-de-jambo, vitrolas, retalhos, cheirinho de café, de pudim-de-leite, de biscoito-de-goma.
Eu mesmo faço um céu para comer e ponho no forno a massa que me deram desde a antiguidade.
Ouço os pássaros e sei.
É este ar que me preencherá.
É neste calor que irei me encurvar e enrugar.
É sob este luar que há de me banhar em breve que chorarei molhando-me todo por dentro
e que amarei em desmedida.
É aqui, neste exato lugar em que já sempre co-existo.
O que eu tenho é raiz e um livro no colo.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Poeminha do Contra


"Todos estes que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!"








(Mario Quintana)

sábado, 4 de junho de 2011

Narrativas do silêncio - Parte II - O Fundamento


Um pé seguia o outro apenas por hábito, calçados em quadriculado roxo sobre o fundo branco. Ela, no entanto, era toda imobilidade. Estava certa de que continuava exatamente naquele ponto a exatos cinco centímetros da rachadura na calçada de onde brotavam plantinhas vivas e teimosas. Ainda podia sentir a pressão da lâmina enferrujada e fria da faca contra seu ventre. A truculência do assaltante. Seu calor sujo. A leveza de uma perda. O sol do meio-dia abrindo caminho por entre os cabelos pretos, no meio da cabeça. Era meio-dia, meu Deus! Nem gritar gritou. Era tudo tão absurdo e óbvio... Não, nada havia de muito valor no que lhe fora tomado, exceto o celular com a discografia de The Smiths. Tomou-lhe a mochila das costas e embrenhou-se pelas ruelas labirínticas depois da casa de muro amarelo pichado. Ela ficou ali. Toda perplexidade. Olhou para o céu -- o que se espera de uma garota assaltada sob o calor mais pleno do sol? Havia uma nuvem em forma de fígado e o céu muito azul. E se aquilo tivesse sido a última coisa a ver na vida? Se ele tivesse... Fechou os olhos para sentir a dor. A nuvem partiu-se feito um algodão de que se arranca um pedaço.
A moça parou embaixo de uma árvore. Não faltava muito para chegar a casa. Só Deus sabe como havia chegado tão longe sem notar. Tudo em que pensava era a imagem do horror: o sangue nutritivo e hepático encharcando as plantinhas na calçada quente do sol. E ela, mais branca, mais branca, mais branca. Tudo era tão cru e banal. Todos os dias, milhares de jovens morrem em pleno dia, abertos para o mundo, com o sangue se esvaindo sem esperança. Sentiu náusea. Por um instante, ela fora todos eles. A alma dividida em quem-sabe-quantas. Mil histórias de vida e de morte eclodiam vertiginosas atrás de seus olhos. Teve de apoiar-se no tronco da árvore para não cair no abismo. Se partisse, ninguém poderia mais ajudá-la. Ofegava feito uma parturiente.
Uma brisa redentora e sábia soprou mansinha, arrastando folhas secas e areia pelos ladrilhos do meio-fio em desalinho. Resgatada que fora do transe, respirava agora mais tranquila. O suor na testa e no queixo parecia gotículas de orvalho. Não havia se encontrado com sua morte. Tudo agora tinha uma outra clareza. E o ar que a todos envolve nunca fora tão cristalino. Sentada no meio-fio embaixo da árvore, olhou ao redor e soube: estava só. Não pôde morrer a morte de ninguém, e ninguém morreria a sua.
Misteriosa e serena, como quem sabe das coisas da vida, atirou para trás os cachos que pendiam sobre os ombros e ergueu-se com uma força trêmula, mas decidida. Em direção a casa, era ela quem caminhava.

domingo, 22 de maio de 2011

Narrativas do silêncio - Parte I - O Desamparo

No exato momento em que a mãozinha esquerda segurou canhestra o primeiro giz-de-cera (anil, adivinho), soube: havia sido marcado para a inadequação. Com os dedinhos ágeis e brancos abria a merendeira para pegar as bolachas que comia só, sentadinho no canto perto da grade da escola com seu cabelinho partido com precisão e com as sandálias de fivela ajustadas aos pés num abraço. As outras crianças brincavam soltas e descabeladas.
Lembrava-se dessa cena da infância quando da chaleira saiu um cheirinho matinal de hortelã para retirá-lo do transe. Pôs-se de pé com alguma dificuldade e caminhou vagaroso até o fogão. As franciscanas arrastavam na cerâmica vermelho-telha numa cadência gostosinha de ouvir. Xic-xic, xic-xic... Fogo apagado, pano-de-prato bordado enrolado na asa da chaleira, xícara verde-musgo enchendo de-va-gar-zi-nho. Cheirinho bom entrando nos pulmões velhinhos e acostumados àquele ritual matutino. Como não pode perceber, meu Deus, que este era já sempre seu destino? A memória empoeirada tinha o peso de uma premonição. Haveria de, desde sempre, estar alhures, trilhar descaminhos, ser a imagem espectral, o invertido, o forasteiro. É verdade, no entanto, que encontrou também boas amizades em suas errâncias. Por que ele havia de ser o único canhoto no mundo? Não era. Conheceu alguns deles. Livres, criativos, sensíveis. Perturbados. Sim, porque a liberdade e a lucidez requerem uma certa medida de loucura. Como surpreenderam-se mutuamente com a vida!
Um pardal feinho pousou no parapeito da janela, mirou-lhe os olhos e, sem cerimônias, voltou para o mundo largo. Será que volta? Ele mesmo, depois de levantar voo, tentou voltar, mas já era tarde. Lembra-se de como foi difícil reencontrar os pais. As palavras caiam trôpegas e maltrapilhas pelos cantos da boca. Tudo o que ficou foi silêncio. Não volte, passarinho. Voe alto que eu fico feliz se você for forte e livre. Agora que seus pais já haviam descansado seus fardos, escrevia-lhes cartas todos os anos, perfumava-as e depois as queimava. Sabe que é inútil, mas ajuda a cobrir a solidão e a saudade. Mas não chora. Guarda as lágrimas para quando chove. Vai ao jardim banhar-se de chuva e lavar-se por dentro. Fica quieto por uns instantes só sentindo tudo. Ouve suas plantas e pisa a terra descalço. Sempre pega pneumonia depois de uns dias. E melhora. Tem horror de ser enterrado em caixa de concreto. Não. A vizinha já sabe que quando ele morrer quer ser enterrado direto na terra. Assim pode, quem sabe, enfim dar vida a alguma coisa. Certa vez, quis escrever aos pais um pedido de desculpas por querer morrer.Ele que morrera de pequenas mortes todos os dias. E foi se tornando uma estátua de gesso de dentro para fora. A vida toda escorrera-lhe por entre os dedos. Os afetos embrutecidos. O corpo domado. Os amores silenciados. Foi nessa época que os outros canhotos perceberam que ele nunca soube mesmo voar: ele mesmo deixou que depenassem suas asas há muito tempo. Ele havia secado.
Levou a borda fina da xícara de cerâmica um última vez aos lábios meio molhados. A mão trêmula como a de sua tão querida bisavó. Pôs os óculos para ver as horas. Ainda tinha tempo para ouvir uma música na vitrola. Tomou a bengala nas mãos para levantar-se e, num espasmo bendito, pensou que, no lugar onde for enterrado, brotarão gerânios. Vermelhos como o amor que ele nunca conheceu.