Este blog surge a partir do módulo "Arte e Literatura: Humanidades Médicas I" do curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará. O módulo tem por objetivo explorar, junto com as e os estudantes de graduação em Medicina, outras dimensões da práxis médica que não apenas as competências tecnológicas duras. Para isso, lança mão de recursos pedagógicos vivenciais e audio-visuais, trazendo elementos da Literatura, das Artes Plásticas, do Cinema, bem como das experiências pessoais compartilhadas pelas e pelos estudantes.
Apesar disso, hoje o blog não quer se definir. Aqui encontram-se estranhamentos e aleluias cotidianos de um contínuo tornar-se.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Aquela lá


Dia cinza a agudiza. Tudo fica quieto como se sempre já tivesse estado lá à espera. Em dias assim, também ela espera com atenção. Canções empoeiradas atravessam a fina e escura malha da caixinha de som e, pesadas, sedimentam-se espalhadas no chão ao seu redor. Na tela do dia frio, pintam cores densas que coalescem e criam mundos impossíveis. Como é possível ter vivido tantas infâncias, adolescências e romances e não os ter vivido? Os mundos que cria e que (re)produz, as (bri)colagens de memórias e de estórias, os sentimentos costurados em colcha de retalhos, tantas letras em si, Deus! Onde estava, enquanto a pele engrossava, os cabelos começavam a se despedir e...? Acho que preciso de um chá verde. Bem morninho, por favor. Que é pra ver se o peito aquece. Mas, como eu ia dizendo, sonhar não é ruim, não. É gostoso, na verdade. Ficar observando as gentes da janela com violetas também. Mesmo tomar chá ou ir ao cinema sozinho pode ser uma delícia. O que mata é esse silêncio que abraça gelado em dia cinza e que nos corta com alguma lucidez maldita. Fecha a janela sobre uma das folhas da violeta, tirando-lhe o fôlego por um instante. Na biblioteca, os livros mofados. Na cozinha, a pia cheia de panelas e travessas sujas de já esquecidas refeições. À mesa, ninguém. Nunca.

sábado, 9 de abril de 2011

Como se fosse Domingo à tardinha...


E existem também as alegrias mansas. Elas nos chegam assim tão macias e mornas quanto a lembrança de um abraço de avó. A alegria mansa não se localiza. Ela vem não se sabe de onde, e fica até a percebermos. Assim, descoberta, perde sua razão e evanesce. O instante mesmo em que o dedinho da criança toca a bolha de sabão. Sorriso bobo que não se sabe sorriso. Nomeado, já é outra coisa.

Só pode ter candura quem já sentiu a chegada doce e a despedida de uma alegria mansa. Ah! como dá saudade, meu Deus... Uma saudade sem rosto, sem nome, sem memória. Saudade que tateia o vazio entre eu e a leveza do mundo. O ar em minúsculos cachinhos escorre diáfano entre os dedos da mão espalmada à procura de quê. E, de repente, se ri por ter percebido que se estava a ponto de chorar só por causa do pôr-do-sol.

Nomeada, a alegria cala tudo. Depois de alegriazinha, fico assim silencioso por três dias, só escutando. É o corpo que escuta a vida. Passado o estremecimento, tudo volta à sua música caótica habitual. Poesia virou carne e sangue. Meu poema só pode ser escrito em braile.


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Alquimias afetivas



"Eu sonho com um poema
Cujas palavras sumarentas escorram
Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,
Um poema que te mate de amor
Antes mesmo que tu lhe saibas o misterioso sentido:
Basta provares o seu gosto..."




(Mário Quintana - Prosas & verso)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Sapiência

"Tinha vantagem não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus pensamentos, sensações, desejos.
Contudo ficar sabendo foi melhor, estou mais densa,
tenho âncora, paro em pé por mais tempo.
De vez em quando, ainda fico oca, o corpo hostil e Deus bravo.
Passa logo. Como um pato sabe nadar sem saber,
sei sabendo que, se for preciso, na hora H nado com desenvoltura.
Guardo sabedorias no almoxarifado."



(Adélia Prado - Quero minha mãe)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Alta noite

Foi assim: outro dia, estava na varanda do apartamento, alta noite, observando atento o silêncio da madrugada -- é preciso estar atento, pois com o silêncio não se brinca -- quando, numa árvore anciã do outro lado da rua, uma folha mais ousada estremeceu e, libertando-se do galho como quem realiza seu último suspiro, dançou graciosamente em seu destino de folha desgarrada, atravessando a rigidez vítrea da noite cega até, enfeitiçada, pousar-lhe no nariz. Fitou o rapaz nos olhos por um instante. Ele era magro e turvo. Havia nele qualquer coisa que não se via, nem se podia entender. De repente, agonizante, sussurrou-lhe: "estás vivo", e tombou morta. Com uma das mãos o rapaz sufocou na garganta o grito de pavor e, em sobressalto, sentiu os poros abrirem-se para o mundo. Havia ar pétreo a lhe envolver por todos os lados -- deu-se conta de que sempre estivera mergulhado no ar e de que encharcava-se dele para respirar, tal como um peixe bebe a vida na água. Suava pegajosamente, a respiração quente e abafada, a fome repentina e, finalmente, em espasmos, surgia uma luz perigosa e morna que vinha de dentro do peito e que o inebriava, como uma grito de amor e de êxtase, ou como uma gargalhada profunda. Meu Deus! Então era verdade! Notou que segurava uma pêra madura. Examinou-a ainda por um momento sem entender, mas, subitamente, adivinhou. Abocanhou voraz a fruta macia e doce. O suco lhe escorria pelos cantos da boca, impregnando a barba-por-fazer. Era verdade.