Quatro e meia da tarde, a luz dourada e turva que, líquida, penetra os espaços pequeninos entre as pétalas das flores amarelas sob as pálidas telhas na varanda traz para mim uma serenidade de livro velho. Confunde-se com as sombras das árvores na grama molhada. Boiam sonhos na memória, e é possível que se veja um rapaz com trajes antigos a tramar uma fuga adolescente com a mocinha da janela. Ela traz os cabelos muito bem amarradinhos a 45 graus da linha das orelhas e deixa um cacho pender ao lado dos olhos, quase de propósito. Ele, alto e magro, tem o nariz comprido e os olhos estreitos, como todo homem. E existe tanta possibilidade nessa tarde perdida Deus sabe quando! É inútil tentar saber o que aconteceu aos jovens, porque a luz das quatro e meia logo dá lugar à noite e à farsa que são os postes e os faróis dos carros. Basta dizer que, naquela tarde, aquilo era a felicidade. E eu, cúmplice, assisti a tudo consternado. Sei guardar segredo. Na mesma hora, uma amiga me confidencia gritos. Guardo-os em potinhos, depois abro as tampas e liberto as borboletas negras com sua dança venenosa. Ainda há certas mariposas que estavam esquecidas sob o criado-mudo, é verdade. Espero a noite chegar plena, para liberá-las, porque estas são minhas, e há que se ter algum cuidado com mariposas. Bichinhos frágeis e terríveis. Alhures, outra amiga querida fica grávida de vida e dá à luz amor. Eu digo "sim!" e danço por dentro. Meu sorriso de fim de tarde é uma oração. Fecho os olhos e, secretamente, canto para Deus. Levinho, levinho.
Este blog surge a partir do módulo "Arte e Literatura: Humanidades Médicas I" do curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará. O módulo tem por objetivo explorar, junto com as e os estudantes de graduação em Medicina, outras dimensões da práxis médica que não apenas as competências tecnológicas duras. Para isso, lança mão de recursos pedagógicos vivenciais e audio-visuais, trazendo elementos da Literatura, das Artes Plásticas, do Cinema, bem como das experiências pessoais compartilhadas pelas e pelos estudantes.
Apesar disso, hoje o blog não quer se definir. Aqui encontram-se estranhamentos e aleluias cotidianos de um contínuo tornar-se.
Apesar disso, hoje o blog não quer se definir. Aqui encontram-se estranhamentos e aleluias cotidianos de um contínuo tornar-se.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Renda Portuguesa
Quatro e meia da tarde, a luz dourada e turva que, líquida, penetra os espaços pequeninos entre as pétalas das flores amarelas sob as pálidas telhas na varanda traz para mim uma serenidade de livro velho. Confunde-se com as sombras das árvores na grama molhada. Boiam sonhos na memória, e é possível que se veja um rapaz com trajes antigos a tramar uma fuga adolescente com a mocinha da janela. Ela traz os cabelos muito bem amarradinhos a 45 graus da linha das orelhas e deixa um cacho pender ao lado dos olhos, quase de propósito. Ele, alto e magro, tem o nariz comprido e os olhos estreitos, como todo homem. E existe tanta possibilidade nessa tarde perdida Deus sabe quando! É inútil tentar saber o que aconteceu aos jovens, porque a luz das quatro e meia logo dá lugar à noite e à farsa que são os postes e os faróis dos carros. Basta dizer que, naquela tarde, aquilo era a felicidade. E eu, cúmplice, assisti a tudo consternado. Sei guardar segredo. Na mesma hora, uma amiga me confidencia gritos. Guardo-os em potinhos, depois abro as tampas e liberto as borboletas negras com sua dança venenosa. Ainda há certas mariposas que estavam esquecidas sob o criado-mudo, é verdade. Espero a noite chegar plena, para liberá-las, porque estas são minhas, e há que se ter algum cuidado com mariposas. Bichinhos frágeis e terríveis. Alhures, outra amiga querida fica grávida de vida e dá à luz amor. Eu digo "sim!" e danço por dentro. Meu sorriso de fim de tarde é uma oração. Fecho os olhos e, secretamente, canto para Deus. Levinho, levinho. domingo, 21 de novembro de 2010
A Mulher de Lot
A mulher de Lot, que o seguia, olhou para trás
e transformou-se numa estátua de sal.
e transformou-se numa estátua de sal.
Gênesis
"E o homem justo seguiu o enviado de Deus,
alto e brilhante, pelas negras montanhas.
Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:
'Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar
as rubras torres de tua Sodoma natal,
a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,
as janelas vazias da casa elavada
onde deste filhos ao homem bem-amado'.
Ela olhou e -- paralisada pela dor mortal --,
seus olhos nada mais puderam ver.
E converteu-se o corpo em transparente sal
e os ágeis pés no chão se enraizaram.
Quem há de chorar por essa mulher?
Não é insignificante demais para que a lamentem?
E, no entanto, meu coração nunca esquecera
quem deu a vida por um único olhar."

(Anna Akhmátova -- Antologia Poética)
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Para confessar pecados
Esta será minha penitência por ter passado tanto tempo sem aparecer por aqui sem motivo: confessar alguns pecados. Sim, porque é assim que compartilhamos nossa condição humana. O pecado -- ou melhor, sua confissão -- é, em certa medida, o ponto de partida para que se estabeleça um verdadeiro espaço de interlocução entre os indivíduos que permita um diálogo genuíno, sem heróis nem vilões, posto que o pano de fundo dos relacionamentos -- e aquilo que nos matém unidos -- é a consciência da decadência, não a da glória.
I
Pois bem, eu costumava ler a Veja. Perdoai. Mas é a mais pura verdade. Em defesa de mim, tenho a alegar apenas a ignorância da adolescência. Tinha por volta de meus 16 anos, terceiroanista... O fato é que havia uma foto da Lya Luft em suas colunas que sempre me dava a impressão de que ela estava prestes a falar: "Francamente!". Internalizei-a. Vez por outra ainda me surpreendo franzindo a testa e fazendo cara de Lya Luft.

II
Ter assistido novelas me estragou a cabeça. Comédias-românticas, romances e certos dramas também são culpados. Acuso-os de terem alimentado por tanto tempo essa ideia do amor trágico. Desses que se conduzem por impulsos mágicos, conjurando maravilhosos fantasmas narcísicos. Negação do corpo e da morte.
III
Certos abraços me deixam angustiado e tenho vontade de chorar horas depois sem mais-nem-menos. É que ser afetado me desconserta um pouco. Viver me deixa à flor-da-pele.
IV
Ter conhecido o cinema europeu me salvou um pouco. Adélia Prado também. Querer um amor feinho é também dizer sim à vida, à sua concretude, às suas múltiplas possibilidades, à emancipação de si e do outro. Por falar nisso, também quero dizer aqui que sou a favor das tentativas. Desses passos desajeitados que damos ao tentar nos erguer, ao dizer-nos, ao pronunciar o mundo, ao desejarmos ser. Sou a favor das tentativas de re-escrever-se, de criar linhas de fuga.
V
Escrevo coisas sem sentido, meio que em espasmos. Depois acho tudo muito violento. É como estar nu. A verdade é que crucifico um pouco minha criança interior, e ela, para se vingar, denuncia a minha impotência. E ri com gargalhadas infantis. Os homens, de forma geral, padecem de uma terrível inadequação à realidade desde o momento em que começam a brincar de super-herói, o que nos torna para sempre narcísicos delirantes absolutamente ingênuos. Acreditai. Este é, pois, nosso ridículo: permanecermos crianças. Mesmo aqueles a quem se ordena serem gauches, estes obedecem cegamente. Adélia diz: sou desdobrável. Sendo assim, quando escrevo, o faço caleidoscopicamente, juntando os cacos de minhas limitações distraidamente. Não quero fazer sentido. Quero inventar borboletas que me saiam pelos cabelos. Deixar o menino correr pelo jardim. Não repareis.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Ainda sobre a anemia
"Porque a maior doença que alguém pode experimentar é ter muito cedo tentado estancar intensidades, banir estranhezas e se deixar morrer lentamente. Afinal de contas, Rômulo, você -- como eu -- entende como é quase sempre desconcertante sentir-se invadido pela vida, porque finalmente lhe digo que o que nos espreita é a vida, é dela que temos medo."

(Glória Diógenes, in Você pode me ouvir, doutor?)
sábado, 2 de outubro de 2010
Laudilene sexta à noite
A verdade é que era frágil. Sempre o fora. Havia qualquer coisa no de-dentro de si que sempre esteve perigosamente por um fio. A invisível teia de aranha que separa as imagens trituradas do caleidoscópio. Os silêncios que entrecortam as palavras. Silêncio também é imagem. Sim. Pois, se estamos mergulhados nas palavras desde que nascemos, há que se respirar os silêncios vez por outra. Não é bem assim. Acontece que olhar é querer escutar e falar o mais íntimo e mudo de nós mesmos. Neste caso, era gritar mesmo. Grito vulcânico de peixe abafado. Todo escuridade. Onde estava mesmo? Pois sim, no olhar. Se olhar falasse, talvez dissesse assim com Caio F: "Só se pode encher um vazo até a borda. Nem uma gota a mais." Mirou o chão. O que diziam em torno de si? Não importava. Só o chão. Só o chão. Num diálogo primitivo com sua ancestralidade, o observava agora quase transbordando. Como quando sentia em seu rosto o vento frio e molhado de mar numa noite dessas enquanto penetrava o escuro sob os arcos que faziam as copas das árvores. Mas então já era criança e tudo tinha cheiro de jambo. Bastava pedalar mais rápido e fechar os olhos. Os flashes amarelados de tempo coincidindo sobre si com as lâmpadas dos postes da rua nua. Enfim, um sorriso com janelinhas abertas. Sorrir não é então isso? Abrir janelas? Nem sempre. Só quando se está por transbordar de alegria. Os olhos vivos olhando. O que, meu Deus? Apenas isso: olhando. Agora, entretanto, o que via era os riscos empoeirados entre as cerâmicas do piso do bar. Inspirou profundamente. Ex-pi-ra-ção. Tentou puxar assunto, socializar-se com as demais pessoas do grupo, mas seus olhos eram moscas insuportáveis. Daquelas que, por mais que se espante, insistem em pousar nas mãos muito-brancas-cor-de-mármore, no cabelo cacheado, no nariz afilado, em caminhar sobre aqueles lábios finos e rosados. Inquietos. Desistiu. Andava desistindo consideravelmente esses dias. As gotas fazendo um barulhinho bom. Contagem regressiva para não-caber-mais-em-si de quê. Tudo era perigoso demais. E absolutamente infeliz, desesperançado mesmo. Sim, porque qualquer escolha nessa vida é um amputar-se. Estou exagerando? Talvez. Mas é verdade mesmo assim. O fato é que despediu-se de todos. Janelas abertas em face uma da outra, como espelhos encaixotando-se infinitamente. Estremeceu e sentiu-se nu, recriminado. Afinal, não se deve olhar alguém assim com tanta força. Invadir a vida dos outros de qualquer maneira é crime, e há coisas que se esconde por detrás da janela e que não são da conta de seu ninguém! Uma última risada estalada. Madeira batendo no desnível do parapeito. Seguiu feito agulha a coser aquela trama de gentes, todas cheirosas e enfeitadas para quê. Fez bem. Não teria futuro. E era coisa de olho mesmo, não de coração. Ao longe, a cantora da noite aborrecida queria saber "para onde os clientes haviam ido na noite anterior que estavam tão assim-sem-ânimo?" Não haviam ido a lugar algum. Chama-se anemia existencial. Viver vai nos escoando a vida de-va-gar-zi-nho, e, quando se percebe, se está assim: vivendo o eterno retorno do entre-camas. E foi para onde ele foi. Digo, para a cama. Livrinho de Caio F na cabeceira porque há que se inventar alguma doçura e algum amor possível no mundo, não? Quis transbordar, mas suportou. Sonhou com flor de jambo e vento no cabelo.
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