Este blog surge a partir do módulo "Arte e Literatura: Humanidades Médicas I" do curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará. O módulo tem por objetivo explorar, junto com as e os estudantes de graduação em Medicina, outras dimensões da práxis médica que não apenas as competências tecnológicas duras. Para isso, lança mão de recursos pedagógicos vivenciais e audio-visuais, trazendo elementos da Literatura, das Artes Plásticas, do Cinema, bem como das experiências pessoais compartilhadas pelas e pelos estudantes.
Apesar disso, hoje o blog não quer se definir. Aqui encontram-se estranhamentos e aleluias cotidianos de um contínuo tornar-se.

domingo, 23 de maio de 2010

Canções da gruta e do desfiladeiro

Sem dúvida, ouvir Alela Diane é uma experiência marítima. Sim. Em seus dois trabalhos, a musicalidade da cantora nos transporta e nos convida a vivenciar o mar a partir de diferentes perspectivas, tendo como fios de tecitura os ecos imemoriais nas vozes das ondas. O mar é cantado em The Pirate's Gospel (2006) como que da fria e secreta gruta à noite. Com uma atmosfera por vezes fantasmagórica, por outras intimista -- embora sempre com uma delicadeza sui generis -- Alela nos apresenta o cheiro salgado da água noturna do século XV, que atravessa o tempo e nos constitui a partir do encontro com o mar mais imediato. É a sensação de estar completamente envolvido pelas águas, no abraço perigoso, mas enigmático e, por isso mesmo vivo, das marés. Alela nos fala sobre sua infância, sobre família e sobre o cuidado com um mundo em cujos limites pesam nossas mãos. O verde fantasma do pirata nos conta suas histórias tristes e bonitas, enquanto dança em volta da fogueira e se dá conta de sua ambição avarenta.
Estabelecendo uma relação mais etérea e quem sabe nostálgica com o mar, em To Be Still (2009), a cantora nos leva a um abismo frente ao oceano para que assistamos juntos ao pôr do sol. Se no trabalho anterior suas canções nos tocavam por nos remeter a uma ancestralidade quase que intuída, neste esses ecos se ampliam de forma tal que só é possível sentir perplexidade ao escutar suas melodias. Tudo nessas canções é grandioso e solene. Não se trata mais do mar do pirata. É, antes, o oceano sublime, intangível e inexplicável que nos emudece. Não é possível tocá-lo, mas ele se dá a ver no azul ancestral dos olhos de sua mãe. Todas as músicas são uma elevação de qualquer coisa em nós, finalizando com a cortante e delicadíssima Lady Divine.
Ouvir Alela Diane é um encontro de si e, ao mesmo tempo, do passado remoto e diáfano em nós. Sua voz é encantada.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Ainda sobre a leveza

É que talvez as coisas tenham ganhado um tom solene demais por aqui... Não, essa não era a intenção. A idéia é apenas sentarmo-nos a uma mesinha para falarmos o que surgir, enquanto se toma café e se escuta, quem sabe, The Doors, ou mesmo Billie Holiday. No intervalo entre duas coisas. Às 16h. Sim, trata-se de viver a intensidade do hiato. E de sorrir, enfim - por que não?


"- Did you know he thought the world as a huge resonating box?
- What a beautiful idea, Jack!"
(Coffee and Cigarettes, 2003)

Sobre a leveza

"E, enfim, Matilda descobriu que a vida podia ser divertida"

(Matilda, 1996, USA)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O Devir Humanidade da Medicina

"Ya conocéis mi historia: no hay ninguno de vosotros que no la haya repetido veinte veces al acabar la copiosa comida, acompañada del bostezo de las sirvientas, ni una de vuestras mujeres que no haya soñado ser alguna vez Clitemnestra. Vuestros pensamientos criminales, vuestras ansias inconfesadas ruedan por los escalones y vienen a derramarse en mí, de suerte que una especie de horrible vaivén hace de vosotros mi conciencia y de mí vuestro grito." (Yourcenar, M. Clitemnestra o el crimen)

A Medicina, entendida como ciência positiva do corpo, é uma fantasmagoria. Sua única salvação possível é incorporar-se à vida. Nesse sentido, se eu disser que o máximo que a Ciência Médica pode querer é ser uma interpretação possível do real, penso não ser mal compreendido. Entendida como vontade de verdade, uma Medicina tal que não se compreenda como produção cultural, portanto humana, corre o risco de descolar-se daquilo mesmo que investiga e de se tornar absurda. Dessa forma, resta a ela se esforçar para olhar o corpo na maior amplitude de sua espacialidade possível. Isto é, o corpo desejante, empoderado, torturado, decadente, sublime, simbólico. O corpo que vive. Humano. A Medicina enquanto ciência -- se é que é possível -- transfixa com olhar não somente o corpo apolíneo de Cassandra, mas o dionisíaco corpo de Clitemnestra. Esse olhar só pode ser interpretante.
Só pode ser um olhar-palavra. Linguagem. Humanidade!

Isso não quer ser uma tese, mas não deixo de me empolgar com a VII Semana de Humanidades UFC/UECE que hoje se encerrou. Pergunto-me se, algum dia, será lícito pensarmos em uma Semana de Humanidades da Saúde. Espero que sim. Enquanto isso, resistamos à mediocridade e à incultura. Isso, caros e caras, é uma luta por uma prática médica enfim lúcida.

domingo, 25 de abril de 2010

Onde vivem os monstros

O monstro é o nosso ponto de incomunicabilidade. É aquilo em nós que só pode se manifestar através da explosão. Aquilo que grita, que dança, que corre, que excede, que despreza a razão. O monstro é Dionísio.
No fascinante e ousado "Onde Vivem os Monstros" de Spike Jonze, somos interrogados acerca do que temos feito da monstruosidade. Até aqui, nada de muito novo, uma vez que ela marca sua presença em nossas histórias desde muito cedo -- lembremo-nos dos contos de fada e dos filmes de horror. No entanto, a perspectiva em que o filme nos faz observar o que seja o monstro difere em muito do não-humano, ou anti-humano, terrível e ameaçador, que deve ser recalcado, ou projetado no outro e destruído para que possamos afirmar nossa própria humanidade. Ele é, na verdade, aquilo mesmo que nos constitui indivíduos. E isso já é sugerido pelo subtítulo da obra: "Há um em todos nós". A função do monstro não é nos mostrar o que não somos, mas sim denunciar aquilo que não podemos. A jornada empreendida por Max -- garotinho protagonista da história, que, ao fugir de casa, encontra seus monstros, sendo proclamado rei ao prometer-lhes que nunca ficariam tristes e que sempre dormiriam amontoados -- não é outra coisa, senão o caminho da percepção da nossa solidão irremediável e da impossibilidade de nossa onipotência. Nesse sentido, o lugar onde vivem os monstros não é o inóspito, o estranho e ameaçador, mas o lugar das fantasias, do desejo sem mediações. É o coração. Ao admitir para si mesmo e para os monstros que não é rei, mas um garoto comum, Max se dá conta do outro e de si-no-mundo. Aí está o encanto dessa delicada história. A partida não é a destruição do monstro, com o triunfo do humano, mas o adeus dolorido que demarca o adultecer. Resta então a Max cumprir sua última promessa: a de contar coisas boas acerca dos habitantes da ilha.
Com uma linda trilha sonora, que nos faz lembrar o anti-folk de Juno, "Where the Wild Things Are" é uma bela metáfora sobre crescimento e sobre família. Um filminho de encher o coração.