Este blog surge a partir do módulo "Arte e Literatura: Humanidades Médicas I" do curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará. O módulo tem por objetivo explorar, junto com as e os estudantes de graduação em Medicina, outras dimensões da práxis médica que não apenas as competências tecnológicas duras. Para isso, lança mão de recursos pedagógicos vivenciais e audio-visuais, trazendo elementos da Literatura, das Artes Plásticas, do Cinema, bem como das experiências pessoais compartilhadas pelas e pelos estudantes.
Apesar disso, hoje o blog não quer se definir. Aqui encontram-se estranhamentos e aleluias cotidianos de um contínuo tornar-se.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Sobre a leveza

"E, enfim, Matilda descobriu que a vida podia ser divertida"

(Matilda, 1996, USA)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O Devir Humanidade da Medicina

"Ya conocéis mi historia: no hay ninguno de vosotros que no la haya repetido veinte veces al acabar la copiosa comida, acompañada del bostezo de las sirvientas, ni una de vuestras mujeres que no haya soñado ser alguna vez Clitemnestra. Vuestros pensamientos criminales, vuestras ansias inconfesadas ruedan por los escalones y vienen a derramarse en mí, de suerte que una especie de horrible vaivén hace de vosotros mi conciencia y de mí vuestro grito." (Yourcenar, M. Clitemnestra o el crimen)

A Medicina, entendida como ciência positiva do corpo, é uma fantasmagoria. Sua única salvação possível é incorporar-se à vida. Nesse sentido, se eu disser que o máximo que a Ciência Médica pode querer é ser uma interpretação possível do real, penso não ser mal compreendido. Entendida como vontade de verdade, uma Medicina tal que não se compreenda como produção cultural, portanto humana, corre o risco de descolar-se daquilo mesmo que investiga e de se tornar absurda. Dessa forma, resta a ela se esforçar para olhar o corpo na maior amplitude de sua espacialidade possível. Isto é, o corpo desejante, empoderado, torturado, decadente, sublime, simbólico. O corpo que vive. Humano. A Medicina enquanto ciência -- se é que é possível -- transfixa com olhar não somente o corpo apolíneo de Cassandra, mas o dionisíaco corpo de Clitemnestra. Esse olhar só pode ser interpretante.
Só pode ser um olhar-palavra. Linguagem. Humanidade!

Isso não quer ser uma tese, mas não deixo de me empolgar com a VII Semana de Humanidades UFC/UECE que hoje se encerrou. Pergunto-me se, algum dia, será lícito pensarmos em uma Semana de Humanidades da Saúde. Espero que sim. Enquanto isso, resistamos à mediocridade e à incultura. Isso, caros e caras, é uma luta por uma prática médica enfim lúcida.

domingo, 25 de abril de 2010

Onde vivem os monstros

O monstro é o nosso ponto de incomunicabilidade. É aquilo em nós que só pode se manifestar através da explosão. Aquilo que grita, que dança, que corre, que excede, que despreza a razão. O monstro é Dionísio.
No fascinante e ousado "Onde Vivem os Monstros" de Spike Jonze, somos interrogados acerca do que temos feito da monstruosidade. Até aqui, nada de muito novo, uma vez que ela marca sua presença em nossas histórias desde muito cedo -- lembremo-nos dos contos de fada e dos filmes de horror. No entanto, a perspectiva em que o filme nos faz observar o que seja o monstro difere em muito do não-humano, ou anti-humano, terrível e ameaçador, que deve ser recalcado, ou projetado no outro e destruído para que possamos afirmar nossa própria humanidade. Ele é, na verdade, aquilo mesmo que nos constitui indivíduos. E isso já é sugerido pelo subtítulo da obra: "Há um em todos nós". A função do monstro não é nos mostrar o que não somos, mas sim denunciar aquilo que não podemos. A jornada empreendida por Max -- garotinho protagonista da história, que, ao fugir de casa, encontra seus monstros, sendo proclamado rei ao prometer-lhes que nunca ficariam tristes e que sempre dormiriam amontoados -- não é outra coisa, senão o caminho da percepção da nossa solidão irremediável e da impossibilidade de nossa onipotência. Nesse sentido, o lugar onde vivem os monstros não é o inóspito, o estranho e ameaçador, mas o lugar das fantasias, do desejo sem mediações. É o coração. Ao admitir para si mesmo e para os monstros que não é rei, mas um garoto comum, Max se dá conta do outro e de si-no-mundo. Aí está o encanto dessa delicada história. A partida não é a destruição do monstro, com o triunfo do humano, mas o adeus dolorido que demarca o adultecer. Resta então a Max cumprir sua última promessa: a de contar coisas boas acerca dos habitantes da ilha.
Com uma linda trilha sonora, que nos faz lembrar o anti-folk de Juno, "Where the Wild Things Are" é uma bela metáfora sobre crescimento e sobre família. Um filminho de encher o coração.

sexta-feira, 12 de março de 2010

"Quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele
soprando sulcos na pele soprando sulcos?
o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina
sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma
(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)

Acho que a vida anda passando a mão em mim
a vida anda passando a mão em mim
acho que a vida anda passando
a vida anda passando
acho que a vida anda
a vida anda em mim
acho que há vida em mim
a vida em mim anda passando
acho que a vida anda passando a mão em mim"




(Viviane Mosé; do livro
Pensamentos do Chão, poemas em prosa e verso
)

quinta-feira, 11 de março de 2010

Presentinho de hoje

Um passarinho hoje me deu um presente assim:

"Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova,
O gesso muito branco, as linhas muito puras,
Mal sugeria imagem de vida -- embora a figura chorasse --
Há muitos anos tenho-a comigo
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de pátina amarelo-suja
Os meus olhoa, de tanto a olharem, impregnaram-na da minha humanidade irônica de físico
Um dia, mão estúpida inadvertidamente a derrubou e partiu
Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos, recompus a figurinha que chorava
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo mordente da pátina

Hoje este gessozinho comercial
é tocante e vive
E me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu."
(O Gesso, Manuel Bandeira)