Um passarinho hoje me deu um presente assim:
"Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova,
O gesso muito branco, as linhas muito puras,
Mal sugeria imagem de vida -- embora a figura chorasse --
Há muitos anos tenho-a comigo
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de pátina amarelo-suja
Os meus olhoa, de tanto a olharem, impregnaram-na da minha humanidade irônica de físico
Um dia, mão estúpida inadvertidamente a derrubou e partiu
Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos, recompus a figurinha que chorava
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo mordente da pátina
Hoje este gessozinho comercial
é tocante e vive
E me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu."
Este blog surge a partir do módulo "Arte e Literatura: Humanidades Médicas I" do curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará. O módulo tem por objetivo explorar, junto com as e os estudantes de graduação em Medicina, outras dimensões da práxis médica que não apenas as competências tecnológicas duras. Para isso, lança mão de recursos pedagógicos vivenciais e audio-visuais, trazendo elementos da Literatura, das Artes Plásticas, do Cinema, bem como das experiências pessoais compartilhadas pelas e pelos estudantes.
Apesar disso, hoje o blog não quer se definir. Aqui encontram-se estranhamentos e aleluias cotidianos de um contínuo tornar-se.
Apesar disso, hoje o blog não quer se definir. Aqui encontram-se estranhamentos e aleluias cotidianos de um contínuo tornar-se.
quinta-feira, 11 de março de 2010
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
A Intersubjetividade e o Nada
Qual o limite da possibilidade de um olhar objetivo em uma relação terapêutica? O filme italiano "O Quarto do Filho" não trata especificamente disso, mas, de forma um tanto despretensiosa, nos leva a tal questionamento. Conduzido de maneira sincera e absurdamente delicada, o filme nos conta a história de um psicanalista e de sua família que têm seu relacionamento e certezas postos em cheque após uma grande perda. A angústia do vazio, talvez o tema central da obra, é explorada através dos silêncios presentes ao longo de toda história, sobretudo os do psicanalista, em suas longas corridas e na belíssima cena em que, mudo, em um parque de diversões, vivencia corporalmente a vertigem que sente de forma abstrata, ou ainda na secreta e adivinhada compreensão de si que a família intui à beira mar, na última cena. A música tema "By this River" ajuda a completar essa sensação de queda e de perda de si no nada.A questão para nós é que não há no protagonista, ou há de forma muito sutil, uma demarcação daquilo que seja o terapeuta e daquilo que são seus outros papéis sociais. E, na mesma medida em que isso pode ser perigoso em uma relação terapêutica, é inevitável. Há uma intersubjetividade clara nessas relações, bem como há uma implicação intrinsecamente subjetiva na escolha profissional, na escolha de um objeto de conhecimento, de desejo, etc. Penso que o que La Stanza del Figlio nos comunica é que, só é possível estar sendo, enquanto se é, por mais indesejado que isso possa ser.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Sobre o adoecer
"A maioria das doenças que as pessoas têm
São poemas presos.
Abscessos, tumores, nódulos, pedras são palavras calcificadas,
Poemas sem vazão.
Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado.
Prisão de ventre poderia um dia ter sido poema.
Mas não.
Pessoas às vezes adoecem da razão
De gostar de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida
Palavra boa é palavra líquida
Escorrendo em estado de lágrima
Lágrima é dor derretida.
Dor endurecida é tumor.
Lágrima é alegria derretida.
Alegria endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida.
Raiva endurecida é tumor.
Lágrima é pessoa derretida.
Pessoa endurecida é tumor.
Tempo endurecido é tumor.
Tempo derretido é poema"
(Viviane Mosé
Receita para arrancar poemas presos)
Postagem clichê
Acho clichê essas postagens de começo de ano que falam exatamente sobre isso, sobre expectativas e promessas autodirigidas. Mas me parece inevitável, desta única vez, fazer uma espécie de ruptura, ou de demarcação de um outro momento. O fato é que, como se vê, decidi continuar o blog e, como sei que ao menos duas pessoas dão uma passadinha por aqui, explico-me. Não se trata de uma ruptura séria, mas de uma desobrigação -- existe? -- com a disciplina de Humanidades Médicas I, uma vez que esta já acabou. No entanto, penso que o conteúdo que aqui será postado, continuará perpassando aqueles assuntos, uma vez que dizem tanto a respeito de minha caminhada, não só acadêmica, mas pessoal. No mais, permitam-me os clichês ao menos nesse começo de ano... por exemplo: deixem-me desejar coisas para este ano. Que 2010 seja vivido! Construído, sentido e às vezes -- por que não? -- distraído. Que tenha gostos, cheiros, movimentos e defeitos. Que seja leve, que seja doce e vermelho. Que não continue sempre como 2009. Que seja melhor. E pior também. Livre. Sim!
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