Este blog surge a partir do módulo "Arte e Literatura: Humanidades Médicas I" do curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará. O módulo tem por objetivo explorar, junto com as e os estudantes de graduação em Medicina, outras dimensões da práxis médica que não apenas as competências tecnológicas duras. Para isso, lança mão de recursos pedagógicos vivenciais e audio-visuais, trazendo elementos da Literatura, das Artes Plásticas, do Cinema, bem como das experiências pessoais compartilhadas pelas e pelos estudantes.
Apesar disso, hoje o blog não quer se definir. Aqui encontram-se estranhamentos e aleluias cotidianos de um contínuo tornar-se.

sexta-feira, 12 de março de 2010

"Quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele
soprando sulcos na pele soprando sulcos?
o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina
sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma
(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)

Acho que a vida anda passando a mão em mim
a vida anda passando a mão em mim
acho que a vida anda passando
a vida anda passando
acho que a vida anda
a vida anda em mim
acho que há vida em mim
a vida em mim anda passando
acho que a vida anda passando a mão em mim"




(Viviane Mosé; do livro
Pensamentos do Chão, poemas em prosa e verso
)

quinta-feira, 11 de março de 2010

Presentinho de hoje

Um passarinho hoje me deu um presente assim:

"Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova,
O gesso muito branco, as linhas muito puras,
Mal sugeria imagem de vida -- embora a figura chorasse --
Há muitos anos tenho-a comigo
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de pátina amarelo-suja
Os meus olhoa, de tanto a olharem, impregnaram-na da minha humanidade irônica de físico
Um dia, mão estúpida inadvertidamente a derrubou e partiu
Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos, recompus a figurinha que chorava
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo mordente da pátina

Hoje este gessozinho comercial
é tocante e vive
E me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu."
(O Gesso, Manuel Bandeira)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Sobre a ordem


"Se existe alguma ordem, para mim, é a da vertigem."



(Marcia Tiburi)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A Intersubjetividade e o Nada

Qual o limite da possibilidade de um olhar objetivo em uma relação terapêutica? O filme italiano "O Quarto do Filho" não trata especificamente disso, mas, de forma um tanto despretensiosa, nos leva a tal questionamento. Conduzido de maneira sincera e absurdamente delicada, o filme nos conta a história de um psicanalista e de sua família que têm seu relacionamento e certezas postos em cheque após uma grande perda. A angústia do vazio, talvez o tema central da obra, é explorada através dos silêncios presentes ao longo de toda história, sobretudo os do psicanalista, em suas longas corridas e na belíssima cena em que, mudo, em um parque de diversões, vivencia corporalmente a vertigem que sente de forma abstrata, ou ainda na secreta e adivinhada compreensão de si que a família intui à beira mar, na última cena. A música tema "By this River" ajuda a completar essa sensação de queda e de perda de si no nada.
A questão para nós é que não há no protagonista, ou há de forma muito sutil, uma demarcação daquilo que seja o terapeuta e daquilo que são seus outros papéis sociais. E, na mesma medida em que isso pode ser perigoso em uma relação terapêutica, é inevitável. Há uma intersubjetividade clara nessas relações, bem como há uma implicação intrinsecamente subjetiva na escolha profissional, na escolha de um objeto de conhecimento, de desejo, etc. Penso que o que La Stanza del Figlio nos comunica é que, só é possível estar sendo, enquanto se é, por mais indesejado que isso possa ser.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Sobre o adoecer

"A maioria das doenças que as pessoas têm
São poemas presos.
Abscessos, tumores, nódulos, pedras são palavras calcificadas,
Poemas sem vazão.
Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado.
Prisão de ventre poderia um dia ter sido poema.
Mas não.
Pessoas às vezes adoecem da razão
De gostar de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida
Escorrendo em estado de lágrima

Lágrima é dor derretida.
Dor endurecida é tumor.
Lágrima é alegria derretida.
Alegria endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida.
Raiva endurecida é tumor.
Lágrima é pessoa derretida.
Pessoa endurecida é tumor.
Tempo endurecido é tumor.
Tempo derretido é poema"

(Viviane Mosé

Receita para arrancar poemas presos)