Este blog surge a partir do módulo "Arte e Literatura: Humanidades Médicas I" do curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará. O módulo tem por objetivo explorar, junto com as e os estudantes de graduação em Medicina, outras dimensões da práxis médica que não apenas as competências tecnológicas duras. Para isso, lança mão de recursos pedagógicos vivenciais e audio-visuais, trazendo elementos da Literatura, das Artes Plásticas, do Cinema, bem como das experiências pessoais compartilhadas pelas e pelos estudantes.
Apesar disso, hoje o blog não quer se definir. Aqui encontram-se estranhamentos e aleluias cotidianos de um contínuo tornar-se.

domingo, 22 de maio de 2011

Narrativas do silêncio - Parte I - O Desamparo

No exato momento em que a mãozinha esquerda segurou canhestra o primeiro giz-de-cera (anil, adivinho), soube: havia sido marcado para a inadequação. Com os dedinhos ágeis e brancos abria a merendeira para pegar as bolachas que comia só, sentadinho no canto perto da grade da escola com seu cabelinho partido com precisão e com as sandálias de fivela ajustadas aos pés num abraço. As outras crianças brincavam soltas e descabeladas.
Lembrava-se dessa cena da infância quando da chaleira saiu um cheirinho matinal de hortelã para retirá-lo do transe. Pôs-se de pé com alguma dificuldade e caminhou vagaroso até o fogão. As franciscanas arrastavam na cerâmica vermelho-telha numa cadência gostosinha de ouvir. Xic-xic, xic-xic... Fogo apagado, pano-de-prato bordado enrolado na asa da chaleira, xícara verde-musgo enchendo de-va-gar-zi-nho. Cheirinho bom entrando nos pulmões velhinhos e acostumados àquele ritual matutino. Como não pode perceber, meu Deus, que este era já sempre seu destino? A memória empoeirada tinha o peso de uma premonição. Haveria de, desde sempre, estar alhures, trilhar descaminhos, ser a imagem espectral, o invertido, o forasteiro. É verdade, no entanto, que encontrou também boas amizades em suas errâncias. Por que ele havia de ser o único canhoto no mundo? Não era. Conheceu alguns deles. Livres, criativos, sensíveis. Perturbados. Sim, porque a liberdade e a lucidez requerem uma certa medida de loucura. Como surpreenderam-se mutuamente com a vida!
Um pardal feinho pousou no parapeito da janela, mirou-lhe os olhos e, sem cerimônias, voltou para o mundo largo. Será que volta? Ele mesmo, depois de levantar voo, tentou voltar, mas já era tarde. Lembra-se de como foi difícil reencontrar os pais. As palavras caiam trôpegas e maltrapilhas pelos cantos da boca. Tudo o que ficou foi silêncio. Não volte, passarinho. Voe alto que eu fico feliz se você for forte e livre. Agora que seus pais já haviam descansado seus fardos, escrevia-lhes cartas todos os anos, perfumava-as e depois as queimava. Sabe que é inútil, mas ajuda a cobrir a solidão e a saudade. Mas não chora. Guarda as lágrimas para quando chove. Vai ao jardim banhar-se de chuva e lavar-se por dentro. Fica quieto por uns instantes só sentindo tudo. Ouve suas plantas e pisa a terra descalço. Sempre pega pneumonia depois de uns dias. E melhora. Tem horror de ser enterrado em caixa de concreto. Não. A vizinha já sabe que quando ele morrer quer ser enterrado direto na terra. Assim pode, quem sabe, enfim dar vida a alguma coisa. Certa vez, quis escrever aos pais um pedido de desculpas por querer morrer.Ele que morrera de pequenas mortes todos os dias. E foi se tornando uma estátua de gesso de dentro para fora. A vida toda escorrera-lhe por entre os dedos. Os afetos embrutecidos. O corpo domado. Os amores silenciados. Foi nessa época que os outros canhotos perceberam que ele nunca soube mesmo voar: ele mesmo deixou que depenassem suas asas há muito tempo. Ele havia secado.
Levou a borda fina da xícara de cerâmica um última vez aos lábios meio molhados. A mão trêmula como a de sua tão querida bisavó. Pôs os óculos para ver as horas. Ainda tinha tempo para ouvir uma música na vitrola. Tomou a bengala nas mãos para levantar-se e, num espasmo bendito, pensou que, no lugar onde for enterrado, brotarão gerânios. Vermelhos como o amor que ele nunca conheceu.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Da sisudez




"O niilismo está bem perto do espírito da seriedade, pois ao invés de perceber sua negatividade como um movimento vivo, ele concebe sua aniquilação de forma substancial. Ele quer ser nada, e esse nada com o qual ele sonha tanto é ainda um outro tipo de ser"





(Simone de Beauvoir - Por uma moral da ambiguidade)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Com o risco de parecer clichê


É difícil acontecer em cidade grande, porque mal se vê o céu. Quando muito, é possível ver a lua por detrás de uma nuvem avermelhada que muito bem poderia ser fumaça. Mas isso não vem ao caso. O que eu ia dizendo é que caminhava distraído quando, de repente -- e não há outro jeito -- a estrela cadente riscou o preto da noite. "Então viver é isso, meu Deus! Como é bonito e inútil..." Sim, porque viver é ser uma faísca que se atira ao Mistério, num corte fino e preciso sobre o tecido da noite escura. Mal começa, e já não é coisa alguma. O que acontece com a faísca no instante seguinte em que já não mais se vê é segredo guardado nas entranhas do breu com seu Silêncio. Mas o que é possível saber é que, durante o instante quase inobservável em que a faísca escreve a si mesma no mundo, sua luz é, ao mesmo tempo, seu destino e sua mais extrema auto-afirmação. A faísca é libertária. Rasga a noite com a violência de uma dúvida. No entanto, ela não tem escolhas nem porquês. A faísca brilha sem motivo e é lançada na incerteza. Tudo o que pode e o que sabe é ser faísca. Dançar livre e ébria ao som do crepitar da madeira em brasa. E é nisso que consiste a sua beleza. Ela é inútil, sem sentido e fugaz: eis o encanto.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Lisbon Revisited

"NÃO: NÃO quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me
enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)
Das ciências, das artes, da civilização moderna!"












(Álvaro de Campos - Fernando Pessoa, Poesias)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Des souvenirs légers

É gostoso o cheiro da madrugada depois de chuva. O céu limpo se veste do índigo-perolado véu lunar, e damas-da-noite florescem. Brotam lembranças de noites passadas, quando, em certa época do ano, à noite, a lua decidia me embalar o sono e iluminava-me a cama inteira. Às vezes, eu deixava de lado o lençol para melhor sentir sua névoa prateada em minha pele. É a lua que nutre meus sonhos. A madrugada surte em mim o efeito de uma epifania etérea, sempre obscurecida pelo torpor do dia. E, ainda hoje, em noites assim claras, banhado em luz fria, tenho a impressão de ouvir no silêncio quase místico canções de ninar. Brilham sonzinhos de xilofone no céu.