Este blog surge a partir do módulo "Arte e Literatura: Humanidades Médicas I" do curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará. O módulo tem por objetivo explorar, junto com as e os estudantes de graduação em Medicina, outras dimensões da práxis médica que não apenas as competências tecnológicas duras. Para isso, lança mão de recursos pedagógicos vivenciais e audio-visuais, trazendo elementos da Literatura, das Artes Plásticas, do Cinema, bem como das experiências pessoais compartilhadas pelas e pelos estudantes.
Apesar disso, hoje o blog não quer se definir. Aqui encontram-se estranhamentos e aleluias cotidianos de um contínuo tornar-se.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Alquimias afetivas



"Eu sonho com um poema
Cujas palavras sumarentas escorram
Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,
Um poema que te mate de amor
Antes mesmo que tu lhe saibas o misterioso sentido:
Basta provares o seu gosto..."




(Mário Quintana - Prosas & verso)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Sapiência

"Tinha vantagem não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus pensamentos, sensações, desejos.
Contudo ficar sabendo foi melhor, estou mais densa,
tenho âncora, paro em pé por mais tempo.
De vez em quando, ainda fico oca, o corpo hostil e Deus bravo.
Passa logo. Como um pato sabe nadar sem saber,
sei sabendo que, se for preciso, na hora H nado com desenvoltura.
Guardo sabedorias no almoxarifado."



(Adélia Prado - Quero minha mãe)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Alta noite

Foi assim: outro dia, estava na varanda do apartamento, alta noite, observando atento o silêncio da madrugada -- é preciso estar atento, pois com o silêncio não se brinca -- quando, numa árvore anciã do outro lado da rua, uma folha mais ousada estremeceu e, libertando-se do galho como quem realiza seu último suspiro, dançou graciosamente em seu destino de folha desgarrada, atravessando a rigidez vítrea da noite cega até, enfeitiçada, pousar-lhe no nariz. Fitou o rapaz nos olhos por um instante. Ele era magro e turvo. Havia nele qualquer coisa que não se via, nem se podia entender. De repente, agonizante, sussurrou-lhe: "estás vivo", e tombou morta. Com uma das mãos o rapaz sufocou na garganta o grito de pavor e, em sobressalto, sentiu os poros abrirem-se para o mundo. Havia ar pétreo a lhe envolver por todos os lados -- deu-se conta de que sempre estivera mergulhado no ar e de que encharcava-se dele para respirar, tal como um peixe bebe a vida na água. Suava pegajosamente, a respiração quente e abafada, a fome repentina e, finalmente, em espasmos, surgia uma luz perigosa e morna que vinha de dentro do peito e que o inebriava, como uma grito de amor e de êxtase, ou como uma gargalhada profunda. Meu Deus! Então era verdade! Notou que segurava uma pêra madura. Examinou-a ainda por um momento sem entender, mas, subitamente, adivinhou. Abocanhou voraz a fruta macia e doce. O suco lhe escorria pelos cantos da boca, impregnando a barba-por-fazer. Era verdade.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Encontrar-se

"Não era à toa que ela entendia os que buscavam caminho. Como buscava arduamente o seu! E como hoje buscava com sofreguidão e aspereza o seu melhor modo de ser, o seu atalho, já que não ousava mais falar em caminho. Agarrava-se ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho onde ela fosse finalmente ela, isso só em certo momento indeterminado da prece ela sentira. Mas também sabia de uma coisa: quando estivesse pronta, passaria de si para os outros, o seu caminho era os outros. Quando pudesse sentir plenamente o outro estaria salva e pensaria: eis o meu porto de chegada.
Mas antes precisava tocar em si própria,
antes precisava tocar no mundo."







(Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres)

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Oração para o novo ano


Ó Deus, livra-me do pensamento-gaiola! Outra coisa não peço, senão isto.
Quero falar pétalas de borboleta. E escrever rastros de caracóis apaixonados.
As conchinhas todas enfeitadas, apenas adivinhadas por quem lê as trilhas brilhantes.
Que eu ouça tuas sístoles com meus poros
e que eu dance a vida na quietude do silêncio, que é teu doce Mistério.
Não, nada quero entender. Quero tão somente chupar o gosto do dia.
Água-viva palpitando no compasso do não-saber que é teu oceano profundo.
Amém.