Este blog surge a partir do módulo "Arte e Literatura: Humanidades Médicas I" do curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará. O módulo tem por objetivo explorar, junto com as e os estudantes de graduação em Medicina, outras dimensões da práxis médica que não apenas as competências tecnológicas duras. Para isso, lança mão de recursos pedagógicos vivenciais e audio-visuais, trazendo elementos da Literatura, das Artes Plásticas, do Cinema, bem como das experiências pessoais compartilhadas pelas e pelos estudantes.
Apesar disso, hoje o blog não quer se definir. Aqui encontram-se estranhamentos e aleluias cotidianos de um contínuo tornar-se.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Narrativas do silêncio -- parte final -- Solitude

É tão bom olhar a densa névoa dourada das quatro e meia.
Entra na pele um fôlego de vida.
Fecho os olhos e acalento estas docilidades:
tenho três anos e adormeço sentindo o cheirinho bom dos cachos recém-frisados de mainha,
painho faz cócegas na planta do meu pé rechonchudo com a barba por-fazer,
meu irmão anda pela casa com as pisadas de quem acabou de aprender a andar, exibindo os quatro dentinhos e segurando sempre uma escova de dentes -- andar sem segurar uma escova é muito perigoso.
Eu sorrio quietinho vivendo tudo.
Tenho saudades de chorar por minha avó quando ela partia.
E de estar assim desconsolado em público.
Ô pai, ô mãe, cadê vocês que eu só reconheço dentro de mim?
É a névoa das quatro e meia e as chamas de vela que meu espírito respira.
Sobe um cheirinho de bolacha cream-cracker passada na frigideira de minha tia.
Ah! como é gostoso lembrar esses cheiros, cores, jeitos, abraços, partidas...
Nutro-me assim
Inflo o peito e fico grande.
É o futuro que eu adivinho recordando.
Na luz escurecida do fim-de-tarde não há temporalidade.
Há cadeiras-de-balanço, rendas brancas, pés-de-jambo, vitrolas, retalhos, cheirinho de café, de pudim-de-leite, de biscoito-de-goma.
Eu mesmo faço um céu para comer e ponho no forno a massa que me deram desde a antiguidade.
Ouço os pássaros e sei.
É este ar que me preencherá.
É neste calor que irei me encurvar e enrugar.
É sob este luar que há de me banhar em breve que chorarei molhando-me todo por dentro
e que amarei em desmedida.
É aqui, neste exato lugar em que já sempre co-existo.
O que eu tenho é raiz e um livro no colo.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Poeminha do Contra


"Todos estes que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!"








(Mario Quintana)

sábado, 4 de junho de 2011

Narrativas do silêncio - Parte II - O Fundamento


Um pé seguia o outro apenas por hábito, calçados em quadriculado roxo sobre o fundo branco. Ela, no entanto, era toda imobilidade. Estava certa de que continuava exatamente naquele ponto a exatos cinco centímetros da rachadura na calçada de onde brotavam plantinhas vivas e teimosas. Ainda podia sentir a pressão da lâmina enferrujada e fria da faca contra seu ventre. A truculência do assaltante. Seu calor sujo. A leveza de uma perda. O sol do meio-dia abrindo caminho por entre os cabelos pretos, no meio da cabeça. Era meio-dia, meu Deus! Nem gritar gritou. Era tudo tão absurdo e óbvio... Não, nada havia de muito valor no que lhe fora tomado, exceto o celular com a discografia de The Smiths. Tomou-lhe a mochila das costas e embrenhou-se pelas ruelas labirínticas depois da casa de muro amarelo pichado. Ela ficou ali. Toda perplexidade. Olhou para o céu -- o que se espera de uma garota assaltada sob o calor mais pleno do sol? Havia uma nuvem em forma de fígado e o céu muito azul. E se aquilo tivesse sido a última coisa a ver na vida? Se ele tivesse... Fechou os olhos para sentir a dor. A nuvem partiu-se feito um algodão de que se arranca um pedaço.
A moça parou embaixo de uma árvore. Não faltava muito para chegar a casa. Só Deus sabe como havia chegado tão longe sem notar. Tudo em que pensava era a imagem do horror: o sangue nutritivo e hepático encharcando as plantinhas na calçada quente do sol. E ela, mais branca, mais branca, mais branca. Tudo era tão cru e banal. Todos os dias, milhares de jovens morrem em pleno dia, abertos para o mundo, com o sangue se esvaindo sem esperança. Sentiu náusea. Por um instante, ela fora todos eles. A alma dividida em quem-sabe-quantas. Mil histórias de vida e de morte eclodiam vertiginosas atrás de seus olhos. Teve de apoiar-se no tronco da árvore para não cair no abismo. Se partisse, ninguém poderia mais ajudá-la. Ofegava feito uma parturiente.
Uma brisa redentora e sábia soprou mansinha, arrastando folhas secas e areia pelos ladrilhos do meio-fio em desalinho. Resgatada que fora do transe, respirava agora mais tranquila. O suor na testa e no queixo parecia gotículas de orvalho. Não havia se encontrado com sua morte. Tudo agora tinha uma outra clareza. E o ar que a todos envolve nunca fora tão cristalino. Sentada no meio-fio embaixo da árvore, olhou ao redor e soube: estava só. Não pôde morrer a morte de ninguém, e ninguém morreria a sua.
Misteriosa e serena, como quem sabe das coisas da vida, atirou para trás os cachos que pendiam sobre os ombros e ergueu-se com uma força trêmula, mas decidida. Em direção a casa, era ela quem caminhava.

domingo, 22 de maio de 2011

Narrativas do silêncio - Parte I - O Desamparo

No exato momento em que a mãozinha esquerda segurou canhestra o primeiro giz-de-cera (anil, adivinho), soube: havia sido marcado para a inadequação. Com os dedinhos ágeis e brancos abria a merendeira para pegar as bolachas que comia só, sentadinho no canto perto da grade da escola com seu cabelinho partido com precisão e com as sandálias de fivela ajustadas aos pés num abraço. As outras crianças brincavam soltas e descabeladas.
Lembrava-se dessa cena da infância quando da chaleira saiu um cheirinho matinal de hortelã para retirá-lo do transe. Pôs-se de pé com alguma dificuldade e caminhou vagaroso até o fogão. As franciscanas arrastavam na cerâmica vermelho-telha numa cadência gostosinha de ouvir. Xic-xic, xic-xic... Fogo apagado, pano-de-prato bordado enrolado na asa da chaleira, xícara verde-musgo enchendo de-va-gar-zi-nho. Cheirinho bom entrando nos pulmões velhinhos e acostumados àquele ritual matutino. Como não pode perceber, meu Deus, que este era já sempre seu destino? A memória empoeirada tinha o peso de uma premonição. Haveria de, desde sempre, estar alhures, trilhar descaminhos, ser a imagem espectral, o invertido, o forasteiro. É verdade, no entanto, que encontrou também boas amizades em suas errâncias. Por que ele havia de ser o único canhoto no mundo? Não era. Conheceu alguns deles. Livres, criativos, sensíveis. Perturbados. Sim, porque a liberdade e a lucidez requerem uma certa medida de loucura. Como surpreenderam-se mutuamente com a vida!
Um pardal feinho pousou no parapeito da janela, mirou-lhe os olhos e, sem cerimônias, voltou para o mundo largo. Será que volta? Ele mesmo, depois de levantar voo, tentou voltar, mas já era tarde. Lembra-se de como foi difícil reencontrar os pais. As palavras caiam trôpegas e maltrapilhas pelos cantos da boca. Tudo o que ficou foi silêncio. Não volte, passarinho. Voe alto que eu fico feliz se você for forte e livre. Agora que seus pais já haviam descansado seus fardos, escrevia-lhes cartas todos os anos, perfumava-as e depois as queimava. Sabe que é inútil, mas ajuda a cobrir a solidão e a saudade. Mas não chora. Guarda as lágrimas para quando chove. Vai ao jardim banhar-se de chuva e lavar-se por dentro. Fica quieto por uns instantes só sentindo tudo. Ouve suas plantas e pisa a terra descalço. Sempre pega pneumonia depois de uns dias. E melhora. Tem horror de ser enterrado em caixa de concreto. Não. A vizinha já sabe que quando ele morrer quer ser enterrado direto na terra. Assim pode, quem sabe, enfim dar vida a alguma coisa. Certa vez, quis escrever aos pais um pedido de desculpas por querer morrer.Ele que morrera de pequenas mortes todos os dias. E foi se tornando uma estátua de gesso de dentro para fora. A vida toda escorrera-lhe por entre os dedos. Os afetos embrutecidos. O corpo domado. Os amores silenciados. Foi nessa época que os outros canhotos perceberam que ele nunca soube mesmo voar: ele mesmo deixou que depenassem suas asas há muito tempo. Ele havia secado.
Levou a borda fina da xícara de cerâmica um última vez aos lábios meio molhados. A mão trêmula como a de sua tão querida bisavó. Pôs os óculos para ver as horas. Ainda tinha tempo para ouvir uma música na vitrola. Tomou a bengala nas mãos para levantar-se e, num espasmo bendito, pensou que, no lugar onde for enterrado, brotarão gerânios. Vermelhos como o amor que ele nunca conheceu.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Da sisudez




"O niilismo está bem perto do espírito da seriedade, pois ao invés de perceber sua negatividade como um movimento vivo, ele concebe sua aniquilação de forma substancial. Ele quer ser nada, e esse nada com o qual ele sonha tanto é ainda um outro tipo de ser"





(Simone de Beauvoir - Por uma moral da ambiguidade)